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Contrato futuro do real recua 10,12% com vitória de Lula; EWZ tomba 18,36%
Resumo:Com a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro, o contrato futuro do real recuava 10,12% e o EWZ caía 18,36%. Analistas veem volatilidade e pressão fiscal.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno provocou forte desvalorização dos ativos brasileiros nas negociações do mercado futuro nos Estados Unidos, segundo a Folha de S.Paulo. Por volta das 21h52 do domingo (25), o contrato futuro do real mais ativo, com vencimento em novembro, recuava 10,12%.
Câmbio, ações e ETFs em queda generalizada
O movimento foi amplo. O EWZ, o fundo de índice (ETF) que representa as ações brasileiras negociadas nos Estados Unidos, despencava 18,36% no mesmo horário. Entre as empresas, as ações da Petrobras listadas nos EUA recuavam 12,92%, o Itaú Unibanco caía 12,72% e o Bradesco, 12,29%. A Vale recuava menos, 3,95%, e a Ambev, 0,61%.
O contrato futuro é um acordo para comprar ou vender dólar numa data futura e costuma antecipar o humor do mercado antes da abertura oficial. A queda de 10,12% indica que os investidores passaram a exigir mais reais por dólar, ou seja, precificam desvalorização da moeda brasileira.
O resultado contrariou o cenário que boa parte do mercado desenhava. Analistas esperavam que a euforia que levou o dólar a cair abaixo de R$ 5 e a Bolsa a superar a marca histórica de 200 mil pontos desse lugar a uma reversão desses movimentos. Desde a confirmação das candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro, em agosto, a Bolsa brasileira acumulou alta de 15,3%.
O que explica a reação
"O resultado contraria o cenário-base e entrega a maior surpresa desta eleição com a vitória de Lula. O mercado não estava posicionado para este desfecho. Amanhã devemos passar por um ajuste severo de preços na abertura", afirmou Felipe Balassiano, diretor do ASA.
Segundo especialistas, com o presidente eleito aumenta o temor de falta de ajustes na trajetória das contas públicas, o que tende a desvalorizar o real ante o dólar. A expectativa de menor controle fiscal tende a elevar o prêmio de risco exigido pelos investidores para financiar o governo, pressionando a curva de juros. Taxas mais altas, por sua vez, podem encarecer o crédito para as empresas e piorar as perspectivas de lucro, pressionando o mercado acionário.
Havia ainda o receio de um circuit breaker na Bolsa brasileira. O mecanismo, que interrompe as negociações por 30 minutos, é acionado quando o Ibovespa, índice de referência do mercado acionário, cai mais de 10%. A última ativação havia ocorrido em março de 2020, quando o mercado repercutia os efeitos econômicos da pandemia.
Volatilidade à frente e o fator político
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, disse que a vitória de Lula deve gerar volatilidade expressiva no câmbio e na curva de juros futura, com possível estresse no mercado de títulos públicos. "A segunda-feira pode ser bastante volátil, porque haverá uma correção de rota e de ânimo do mercado", afirmou. Segundo ele, o cenário deve ser marcado por volatilidade cambial, inflação persistente e menor margem para o Banco Central cortar os juros.
Sung ponderou que, apesar do pessimismo de curto prazo, é preciso observar como as pautas econômicas vão avançar no médio prazo. Ele lembrou que, após a eleição de 2022, houve certo pessimismo com o retorno de Lula, mas 2023 foi positivo para a Bolsa após a aprovação do novo arcabouço fiscal.
Luiz Ferreira, diretor do banco suíço EFG para as Américas, afirmou que as primeiras impressões indicam que Lula vai enfrentar oposição forte no Congresso e terá de lidar com pressões fiscais, o que deve se refletir nos ativos brasileiros. "O primeiro impacto deve ser uma volta das taxas de juros aos patamares anteriores ao resultado do primeiro turno. Também é possível esperar uma alta do dólar e a devolução de parte dos ganhos da Bolsa", disse. Ele atribuiu essa expectativa à perspectiva de continuidade dos déficits e dos gastos elevados, além da dificuldade de governabilidade, e não a um processo recessivo.
O mercado também repercutia a judicialização do pleito, com a prorrogação do horário de votação por determinação do ministro Cristiano Zanin, do STF. Segundo investidores e analistas, a medida abre margem para insegurança jurídica, independentemente de quem saia vitorioso.
Leonardo Mendes, economista e consultor financeiro da Manchester Investimentos, disse que a prorrogação acrescentou uma camada de incerteza institucional a uma eleição que já concentra expectativas sobre a condução da economia. "Isso não permite antecipar uma anulação ou uma disputa judicial prolongada, mas coloca esse risco no radar dos investidores", afirmou. Se a contestação ganhar força, disse ele, a tendência é de maior procura por proteção em dólar, pressão de alta nos juros futuros e maior volatilidade na Bolsa.
William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, disse que ainda é cedo para dimensionar a desvalorização dos ativos brasileiros, mas os sinais apontam para queda expressiva, revertendo boa parte dos ganhos registrados após o primeiro turno. Ele destacou a possibilidade de judicialização do segundo turno e afirmou que incertezas políticas, jurídicas e econômicas costumam aumentar a percepção de risco.
"Olhando para além do curto prazo, fundamental lembrar que o desafio fiscal permanece, independentemente do candidato eleito. Esse desafio se intensificou ao longo do mandato, com os benefícios e programas criados, ampliados ou mantidos, deixando uma conta ainda mais pesada para 2027 e os anos seguintes", afirmou Alves.
Marcelo Castro, sócio-diretor da Iepê Investimentos, disse que pode haver ação no próprio STF, mas não novas eleições. "Toda essa confusão que o TSE causou só vai servir para o lado perdedor arrumar uma desculpa, seja que lado for", afirmou, vendo potencial prejuízo para o mercado.
Para Mendes, a reação dependerá da margem final de votos, do conteúdo de eventuais questionamentos e da postura dos candidatos e das instituições. Um resultado reconhecido, acompanhado de respostas rápidas e transparentes, pode reduzir bastante a tensão, disse ele.
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